quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Lágrimas

João, rapaz pobre da periferia paulistana.  Aos vinte e poucos anos trabalhava como ajudante de pedreiro em uma obra no centro. Quieto, gostava de tomar uma cervejinha, nas horas de folga, com os amigos. Estudou até o ginásio, mas gostava de ler o que via pela frente. João Morava sozinho numa casinha simples de dois cômodos. Seus pais moravam no sertão baiano.

Certo domingo de inverno, João decide perambular pelas ruas da cidade. Com uma jaqueta azul marinho, calça jeans desbotada, camisa polo e sapato preto, ele caminha sem rumo nos calçadões da vida.

João Contempla a beleza gótica da Catedral da Sé, e ao sair dali se depara com uma garotinha de uns nove anos. Sozinha e trêmula está encostada ao lado da escadaria da igreja. João fica com remorso, vai numa lanchonete ao lado e compra pão e café com leite, e leva até a criança. A menina nada diz, mas uma pequena lágrima escorre em sua face. João segue seu caminho.

João se encontra agora ao lado do Páteo do Colégio. Ali o início de tudo na então vila de São Paulo.  Depois de apreciar a bela paisagem urbana, ele vê um mendigo deitado num banco. Ao se aproximar, o morador de rua senta no banco e chama João.
-Moço faz uma oração pra mim? João segura nas mãos dele e reza um Pai Nosso e uma Ave Maria. Enquanto João reza, uma lágrima desce sobre a bochecha do mendigo. João levanta e vai embora.

Mosteiro de São Bento. Mais uma vez João se encontra a apreciar a beleza sacra daquele templo em meio à selva urbana.  João entra no momento em que se celebra a Missa em canto gregoriano. Senta-se ao lado de uma senhora. No momento de ação de graças, João percebe uma lagrima no rosto da mulher, que de súbito e repleto de emoção abraça o pobre rapaz. Terminada a Missa João decide retornar ao seu singelo lar.

Ao se aproximar do portão de casa, um pingo de chuva bate em sua cabeça escorrendo pelo seu rosto. João percebeu que aquele pingo de chuva era Deus que chora e se preocupa com seus filhos João olha pra cima e percebe as nuvens se abrindo. João entra e senta em sua cama de solteiro, três lágrimas caem de seu rosto. As nuvens se abrindo significou para João a Luz, o fazendo lembrar-se de uma frase do saudoso padre Léo, que dizia: “Quem chora em Deus não se afoga em suas Lágrimas”. João deitou-se e dormiu feliz.
Padre Wetemberg Aires de Oliveira

                                                                                                            

sexta-feira, 1 de julho de 2016

ABRAÇO DA PAZ!


“Todo aquele que pretende ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus...” (Tg 4,4).

É preciso fazer de seu mundo, o mundo de Deus. Misericórdia, perdão, conversão, alegria e salvação. Este é verdadeiramente o mundo do Senhor. Quando sentimos ódio, rancor, raiva, inveja e ciúmes, estamos cada vez mais nos afastando do Pai. Então o que fazer para acolher o mundo de Deus em sua vida?

Primeiramente, lembrar-se daquele gesto singelo realizado na missa, após o Pai Nosso: o Abraço da Paz. Quando este gesto é feito somente com o coração repleto do Espírito Santo e imbuído de fraternidade é sinal de que esta paz faz você ser um amigo de seu irmão e consequentemente amigo do mundo de Amor proposto por Jesus. O abraço da paz torna-se assim um momento de acolhimento, de aproximação e até de reconciliação.

Em um segundo momento contemplemos o Cristo, abraçar e acolher as crianças. É Jesus reconhecendo que por intermédio de nossas fragilidades, simbolizadas nas crianças, Ele está sempre por perto para nos proteger com seu abraço e carinho: “Quem acolhe em meu nome uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo não a mim, mas àquele que me enviou” (Mc 9,37).

Portanto, queridos irmãos e irmãs, nos tornemos amigos de Deus, tendo a coragem de levar Paz ao próximo com um abraço Fraterno.

Padre Wetemberg Aires de Oliveira



sábado, 2 de janeiro de 2016

O quanto nos conhecemos de verdade?



O Quanto nos Conhecemos de Verdade?

2015 passou. Com ele se vai boas lembranças; momentos de turbulências; alegrias e tristezas. Já estamos em 2016. E agora, o que fazer? Antes de tudo nascer, porque faz parte do processo da vida,  pois ninguém nasce pronto. Depois é  preciso caminhar, buscar, modificar, ou seja, vamos nos construindo, nos conhecendo. Mas, o que é conhecer? O quanto nos conhecemos de verdade?

Entre tantos significados para o verbo transitivo conhecer, destaco aquele que diz que, conhecer é  apreciar algo ou alguém.

Apreciar que Deus faz tudo com amor e coloca nas nossas vidas pessoas que nos ensinam o verdadeiro sentido de amar.

Compreender que a humanidade está ferida pelo próprio homem. Ferida pelas crianças que morrem naufragadas pela guerra... ferida pelo inocente  que tem sua vida ceifada pelas bombas do terror... ferida pelo trabalhador que perde todo seu projeto de vida carregado por uma enxurrada de lama. Compreender que tudo isso chama-se desamor presente no coração do insensato.

Entretanto,  é preciso apreciar e compreender  os desígnios de Deus, através de sua benção aos seus filhos prediletos... apreciar e compreender que a plenitude do tempo se dá quando o Pai envia o seu Filho para a salvação do mundo... apreciar e compreender que Maria é  a Teotókus,  Mãe de Deus e nossa, mulher que traz o verdadeiro sentido da Paz,  que concebeu Jesus o Deus Salva.

Então,  nos conhecer de verdade é  um processo  que desencadeia uma linda amizade. Não uma amizade restrita e fugaz,  mas uma amizade verdadeira e fraterna... "uma alma com dois corpos ", como dizia Aristóteles.

É essa amizade que peço para que tenhamos em 2016. Ser mais amigo de Jesus; ser mais amigo de Maria,  nossa Senhora; ser mais amigo daquela pessoa que conheci há pouco tempo e me passa confiança; ser mais amigo de Deus.

Desejo a você  2016 repleto de amizade verdadeira,  de Amor e de Paz.
             Padre Wetemberg Aires de Oliveira
                              01/01/16

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Palavra de Vida



Estava eu celebrando a Santa Eucaristia no Santuário da Penha no ano de 2014.  Era a Missa das 17 horas, se não me falha a memória uma quarta-feira. Calor intenso.

Ao terminar a missa, um morador de rua sujo e bêbado levanta a mão e diz que quer falar comigo. Aponto para que ele se dirija pela direita à Sacristia do Santuário. Lá começo a tirar os meus paramentos, a movimentação dos ministros é intensa para guardar os objetos da Missa. O homem que quer falar comigo está ali na espera. Peço para ele entrar e conversar. Ele diz com voz firme: “Eu espero, quero falar em particular”.

No fundo da Igreja, ao lado da Sacristia, existe uma salinha para atendimento espiritual e confissão. Fiquei pensando, o que será que ele quer? Será apenas um pedinte? Será que quer roupas, comida ou dinheiro para tomar sua caninha?

Chamo o homem até a sala. Ele não quis sentar e foi lodo dizendo:
- Padre, sua missa é legal mesmo, gostei muito.
Agradeci e ele continuou:
- Posso te fazer um pedido?
Eu respondi que sim e ele completou:
-Olha Padre, não quero nada não, gostei do senhor. Só vim aqui pedir uma Benção, o senhor me abençoa?

Aquelas palavras me emocionaram. Percebia-se a sinceridade no coração daquele filho de Deus. Coloquei as mãos sobre sua a cabeça e fiz uma oração. Ao terminar a oração ele fez outro pedido:

- Me dê um abraço? Eu o abracei, ele agradeceu e saiu sem dizer nenhuma palavra a mais.

Queridos irmãos e irmãos. Aqui fica um ensinamento. Deus age nas pessoas com ações e Palavras. Neste pequeno testemunho a obra de Deus está presente na solidariedade, na fraternidade e no Amor pelo próximo. A Palavra, neste caso, está na Benção.  Quem pede com Amor, recebe com Amor. 

O que aquele homem recebeu foi Palavra de Vida, que diz “Deus te abençoe meu filho, vá em Paz”.

Padre Wetemberg Aires de Oliveira – 17/09/2009

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Cotidiano de um trabalhador atrasado


Vai num compasso lento... quase parando... a cabeça doendo,  a dor aumentando,  coração acelerando e... nada de chegar...

Frio,  suor,  mau cheiro,  corpo espremido... peito chiando e...  nada de chegar...

Chego na estação... corro... língua pra fora e... nada de chegar... Cheguei.. Bom chegar...  pôxa vida... Cadê o pessoal?  Todos faltaram? Não... é  greve... Ai minha dor de cabeça...  pra casa vou voltar... e lá vai ele.. quase parando... Não... trem descarrilou e... nada de chegar!!!
                                 Padre Wetemberg Aires
                                           20/05/15

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

QUE BOM É DEUS!




Paz! Precisamos de paz queridos irmão e irmãs. Ela existe, e está em todos os lados.

A paz está na natureza, na contemplação sublime dos mares e oceanos; nos rios com seus peixes numa dança frenética de harmonia; nas serras e montanhas; nas nuvens em seus formatos exuberantes, ou seja, num horizonte de belas paisagens.

A paz está em todos os cantos, exceto num lugar que deveria se fazer presente: o coração humano. A cegueira do mundo faz com que o homem perca a paz. É a criatura perdendo seu senso diante das maravilhas criadas por Deus. Jesus chora a falta de paz no coração das pessoas. Entretanto, é Ele Jesus, a chave de leitura para entendermos a beleza da Obra Criada por Deus. É Jesus quem nos traz a paz. É o Filho do Homem mostrando quem é o Pai.

Tudo é ordenado por Deus: 
Deus me oferece a oração para que eu me liberte dos pecados e busque a santidade;
Deus me oferece a esperança para pensar sempre nas belas paisagens;
Deus me oferece a caridade para viver fraternalmente com meu próximo;
Deus me fala no louvor;
Deus me fala no silêncio;
Deus me fala ao coração;
Deus me ensina a ter paz!

E porque tudo isso?
Porque Deus é bom comigo e porque sou seu filho. Assim, posso dizer: Que bom é Deus!

Padre Wetemberg Aires de Oliveira, 21/11/14

terça-feira, 5 de agosto de 2014

SER PADRE

SER PADRE

 Agosto mês de refletirmos, na Igreja, os diversos chamados de Deus aos seus filhos e filhas. É o mês das vocações: ser pai, ser consagrado à vida religiosa, ser leigo engajado na comunidade, etc. Entretanto, quero refletir sobre uma vocação específica, de suma importância para o anúncio da Boa Nova: o ser Padre.

 "Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8) é o meu lema de ordenação sacerdotal. Esta frase me faz ver o quanto Jesus me encoraja no ministério, mesmo diante dos ventos contrários e tempestades em alto mar. Jesus é o porto seguro, que nos auxilia diante das fraquezas e quedas. Por isso, Ele sempre diz "Vem".

 O Padre, assim como Cristo, se isola, silencia, vive sua solidão para discernir e assimilar o que passa na sua vida e na sua missão. No entanto, ser padre é sair desse isolamento e ir de encontro à multidão faminta e sedenta de Deus. O Senhor me enviou para este serviço. Eu disse SIM e aqui ESTOU.

 Deus conhece nossas falhas, porém conhece, também, a profundidade de nosso coração. E, quando o coração se torna misericordioso e compassivo, percebo que a missão está no caminho certo. Mas, afinal, o que é ser padre?

 Estive recentemente visitando um casal amigo, onde benzi sua nova residência. Depois da benção participei de um delicioso jantar. Na conversa surgiu o assunto vocação. Expus que jamais imaginei ser padre. Quando criança meus pais colocaram, no álbum dos "primeiros passos", que no futuro eu seria médico. Entretanto, pelos caminhos da vida e plano de Deus, me formei em jornalismo e hoje sou sacerdote. A anfitriã daquele jantar, com uma incrível serenidade, não titubeou e disse, “seus pais não erraram, o senhor se tornou Médico de Almas".

 Mais tarde, já na minha casa, novamente no isolamento e silêncio de meu quarto, comecei assimilar aquele dia. Abri um sorriso, agradeci a Deus e tive mais convicção, ainda, de que ser padre é isso: ser Médico de almas. Deitei e adormeci feliz.

                                                               
Padre Wetemberg Aires de Oliveira - 05/08/2014


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